Incluindo pessoas surdas em um ambiente ágil

Como tem sido a experiência de inclusão de pessoas surdas em um ambiente ágil e como essa experiência tem ajudado tanto no desenvolvimento individual quanto nas interações do time como um todo.

20/01/2019

Artigo colaborativo de Pedro Henrique Silva, Josi Gama, Ivan Diesel, Felipe de Morais, Denis Costa, Guilherme Dias, Deise Schroeter e Gustavo di Domenico. Originalmente publicado no Medium.

O manifesto ágil foi escrito em 2001 e marcou o início de uma nova maneira de desenvolver software, que tem como um de seus fundamentos “valorizar indivíduos e interações mais que processos e ferramentas”. Esse princípio é bastante alinhado com as políticas de inclusão que defendemos e praticamos na ThoughtWorks, já que buscamos construir um ambiente seguro em que todas as pessoas se sintam bem-vindas.

Em Porto Alegre, temos um colega surdo, o Ivan, que é desenvolvedor e professor de LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). O Ivan é casado e tem duas filhas que são ouvintes, está na Thoughtworks há mais de um ano e foi aqui que ele teve sua primeira experiência com desenvolvimento ágil.

Nesse artigo, iremos falar um pouco sobre como tem sido a experiência de inclusão de pessoas surdas em um ambiente ágil e sobre como essa experiência tem ajudado tanto no desenvolvimento individual quanto nas interações do time como um todo.

“Em outras empresas, eu sempre trabalhei sozinho, a conversa sempre era escrita por chat e basicamente eu só recebia as tarefas para serem feitas. Na Thoughtworks é diferente, porque todo mundo está interessado em ouvir e aprender.” — Ivan Diesel

Em um time, temos vários momentos em que trabalhamos juntos, como o pareamento, as reuniões, que tiveram grande importância para a evolução da comunicação. Algumas outras iniciativas também ajudaram na construção do relacionamento.

PAREAMENTO

Pareamento por si só pode ser um desafio para pessoas que falam a mesma língua. Agora imagine para pessoas que falam línguas diferentes. LIBRAS ou Sign Language (Língua de Sinais) é a primeira língua das pessoas surdas, é o idioma com o qual se alfabetizam, sendo o português ou inglês, por exemplo, línguas secundárias. Tendo isso em mente e somando o fato de que estamos aprendendo LIBRAS, escolhemos utilizar a comunicação total (LIBRAS, oral e escrita).

Quando temos assuntos mais técnicos a ser tratado no pareamento, geralmente tentamos dar algum exemplo mais prático ou até mesmo fazer desenhos e fluxogramas, já que muitas vezes a explicação visual é mais eficiente para a compreensão de um problema.

Quando uma pessoa pareia com o Ivan e ainda não se sente muito confortável na comunicação, utilizamos uma técnica que o nosso time chama de “tri-pair”, na qual participam a dupla de desenvolvedores e o observador, uma pessoa que sintetiza e registra por escrito o tudo que está sendo feito no pareamento.

“Minha capacidade de comunicação melhorou muito com a experiência do pareamento e o aprendizado de LIBRAS.” — Felipe de Morais


Felipe de Morais, Ivan Diesel e Pedro Silva trabalhando juntos

REUNIÕES

No dia a dia trabalhando com uma pessoa surda, aprendemos a entender melhor a língua de sinais, mas isso pode levar algum tempo. Em reuniões, na maioria das vezes, temos um intérprete de LIBRAS que faz a comunicação entre a pessoa surda e os ouvintes, assim o ritmo de comunicação torna-se mais fluído e possíveis ambiguidades são evitadas.

Durante as reuniões de stand-up, por exemplo, uma ideia inicial que funcionou muito bem foi transcrever o que estava sendo falado com o apoio de ferramentas de textos, para que o Ivan pudesse acompanhar com mais facilidade. Para auxiliar a transcrição, orientamos o time para falar devagar e respeitar a vez do próximo. Atualmente, com a evolução do time na prática da língua de sinais nos comunicamos por LIBRAS nas stand-ups, aumentando as possibilidades de acessibilidade e trazendo mais inclusão para o time.


Comunicação em LIBRAS na stand-up do time

INICIATIVAS

No começo, utilizávamos a intérprete para todas as nossas reuniões. Essa era a única forma de nos comunicarmos com o Ivan. Mas percebemos que não poder nos comunicarmos quando a intérprete não estava por perto era um problema. Então evoluímos para utilizar mais comunicação escrita mesmo nas reuniões, usando o que estivesse próximo: guardanapo, quadro, papel ou computador.

Também notamos que durante as stand-ups o Ivan se comunicava bem rápido em LIBRAS, por isso as pessoas não entendiam muito bem. Dessa forma, ele começou a sinalizar mais devagar para que todos pudessem acompanhar. Entretanto, devido à dificuldade que as pessoas sentiam de se expressar em LIBRAS continuamos usando a linguagem oral, com alguém escrevendo e o Ivan sinalizando.

Com o tempo nós começamos a aprender os sinais mais básicos de LIBRAS, e a usar os sinais que criávamos para o nosso contexto específico. Um problema comum era a dificuldade de referenciar as pessoas do time, pois elas não tinham sinais para serem representadas. Na cultura surda as pessoas têm sinais específicos que simbolizam cada uma, então realizamos o ‘batismo’ dos membros do time, para facilitar as interações.

O passo seguinte foi praticar LIBRAS durante as reuniões e os pareamentos, através da comunicação total, que se caracteriza pelo uso simultâneo da língua oral e de sinais.

Outra iniciativa que ajudou no avanço com a língua de sinais, foi a promoção do curso de LIBRAS ministrado pelo próprio Ivan.

Através dessas iniciativas, passamos a usar cada vez menos o recurso da escrita e passamos a sinalizar em reuniões, pareamento e até conversas informais.

Os ganhos profissionais foram de ter uma comunicação mais fluída, como fazer a inclusão de uma pessoa PCD no time, como de fato trabalhar com essas dificuldade de comunicação, e os ganhos pessoais foram aprender a se comunicar em LIBRAS, se colocar no lugar do outro e saber que todos temos nossos limites e desafios de comunicação. — Josi Gama